sexta-feira, 5 de dezembro de 2008



Vou publicar com grande emoção - que cala fundo em meu peito - um poema escrito por um guerrilheiro desconhecido, Moçambicano, durante a "Guerra Colonial", embate sangrento enfrentado pelo exército Português na África entre 1.961 e 1.974. Foi esta Guerra que obrigou meus avoengos a virem para o Brasil. Este Poema é intitulado "Camarada Inimigo" e é um vívido exemplo de como a imaginação poética pode ver um Soldado Português abatido pela guerrilha, portanto é uma visão moçambicana de um morto em combate:

"Esteve aqui um inimigo sem fome, muita
Deixou-me este inimigo uma ração de combate com formigas
E dois pedaços de papel de jornal com excrementos
E vinte e duas latas de cerveja vazias
E capim pisado.

Contou-me muita informação preciosa este inimigo
Sei que há três meses fazia frio em Lisboa
Caetano esta bom na legenda mas só tem meia cabeça na foto
E o seu sorriso acaba onde começa mais excremento
Caetano está bem mas o povo português muito triste
Hoje há três meses, pois Eusébio não alinha por ter menisco
É Santo Francisco de Paula senhorio em Lisboa dos pobres.

Sei ainda que este inimigo tem a doença de sede por esquecer
Tem muita fome porque ainda não sabe aprender a esquecer
Tem diarréia, tem lombriga, tem solidão
E só sabe fumar metade do cigarro.

Este inimigo deixa muita informação e resto
Não pode ser um inimigo tão assim tanto
É um camarada trabalhando em campo inimigo
Que na morte, pelo menos, é agente duplo".

Marcus James

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