
A segunda nau a entrar foi a Belém, de Jorge de Melo Pereira. Mas levou muito tempo e, por isso, Pêro Barreto, na Taforea Grande, passou-lhe à frente. Transposto o canal, dirigiu-se à nau turca que lhe estava destinada, a terceira, a qual aferrou por estibordo. Mas, como esta tinha também uma outra amarrada a si, Pêro Barreto e os seus companheiros tiveram que se haver, ao mesmo tempo, com as guarnições de duas naus, o que deu ensejo a que o combate se prolongasse.
Enquanto isto se passava, Jorge de Melo estava furioso por ter sido ultrapassado e não se fartava de insultar o mestre! E, para recuperar o atraso, mandou largar a vela grande, além do traquete e da mezena. O resultado foi que a nau ganhou velocidade e, antes que as velas pudessem ser de novo colhidas, ultrapassou todas as naus turcas e mesmo a grande nau de Diu, acabando por só conseguir abordar, por estibordo, o grupo de duas naus desta cidade que hvaiam lhe seguido no impetuoso avanço! Deste modo ficou perdida para o combate com os turcos a melhor e mais bem guarnecida nau da armada Portuguesa.
A quarta nau a entrar foi a Rei Grande, de Francisco de Távora. Na sua esteira ia a Frol de la Mar, de João da Nova, com o Vice-Rei. Vendo este o que se passara com a Belém e apercebendo-se que a Santo Espírito estava em dificuldades, crê-se que tenha mandado ordem a Francisco de Távora, que o precedia, e a Garcia de Sousa, que o seguia, para irem abordar a nau de Mir-Hocem, o que ambos fizeram. A chegada da Taforea Grande com a tripulação ainda descansada e sequiosa pelo combate fez pender definitivamente a luta no convés da capitânia turca a favor dos Portugueses. Embora oferecessem resistência desesperada, os turcos foram obrigados a abandonar o exterior e a refugiar-se nos pavimentos inferiores, onde acabaram por ser todos mortos ou feitos prisioneiros. Mir-Hocem, ferido e vendo a nau perdida, passou-se para uma pequena embarcação que estava amarrada pela popa e, aproveitando a confusão da batalha, atravessou o canal sem que ninguém desse por ele e foi para a vila dos Rumes. Montou a cavalo e fugiu a galope para Cambaia, com mais receio de Meliqueaz do que dos Portugueses. Entretanto, a Taforea Pequena, de Garcia de Sousa, tinha também atracado a capitânia turca, ajudando a dominar os últimos focos de resistência.
A Frol de la Mar, logo que alcançou o porto interior, percorreu a curta distância a linha de batalha para que o Vice-Rei se pudesse inteirar da situação. À passagem pela última nau turca, ao começar a guinar para estibordo, disparou toda a sua artilharia de bombordo contra ela. Mais uma vez o efeito dos tiros de grosso calibre disparados à queima-roupa foi devastador. A nau turca sofreu um rombo na amura junto à linha d’água, e começou a afundar. No entanto, a maior parte da sua guarnição se salvou, ou por combater contra Pêro Barreto na nau vizinha ou por ter tido tempo de se passar para ela antes da nau Turca ir a fundo.
Neste ponto não podemos deixar de pensar que o afundamento de duas naus turcas, cada uma delas com uma única salva de artilharia, veio dar razão a um condestável da nau de D. Lourenço de Almeida que anteriormente na batalha de Chaul havia afirmado sem ter conseguido convencer seus iguais, ser possível afundar a armada turca a tiro de canhão. Seja como for certo é que os portugueses aprenderam a lição. Em Diu, todas as naus Portuguesas que o puderam, antes de abordar as contrárias, dispararam à queima-roupa, toda a sua artilharia.
Prosseguindo o seu caminho, a Frol de la Mar foi fundear em frente das naus de Diu, a meio do canal, de modo a barrar a passagem aos navios de remo, que não flagelavam com lanças pontiagudas, ganchos de atracagem e flechas as naus que iam entrando, embora com fracos resultados. A verdade é que a decisão de Meliqueaz de dar batalha no porto interior foi extremamente favorável para os portugueses, porquanto o principal fator de força do inimigo, era sua superioridade esmagadora em navios de remo, que ficou praticamente anulado. Num canal cuja largura mal chegava aos duzentos metros, só era possível às galés, galeotas, fustas ou paraus combater numa frente de, no máximo, doze unidades, que, mesmo assim, tinham de estar muito próximas, o que facilitava enormemente a ação dos bombardeiros. Por outro lado, a grande quantidade de embarcações que lhes vinham por trás embaraçava-lhes as manobras em combate.
A partir do momento em que as naus portuguesas começaram a chegar ao porto interior, disparando continuamente as suas baterias, os navios de remo adversários começaram a sofrer avarias e baixas sérias o que os empurrou inexoravelmente para dentro e para a costa, comprimindo-os uns contra os outros. Depois que a Frol de la Mar fundeou, os ataques dos navios de remo concentraram-se sobre ela, deixando todas as outras naus portuguesas livres. Meio cegos e sufocados pelo fumo que agora era intenso, denso e todo presente, os bombardeiros da capitânia Portuguesa mesmo assim não sustiveram o ataque, disparando salva após salva sobre as galés, galeotas, fustas e paraus inimigas, dos quais mais de uma dezena foram afundadas e muitas mais gravemente avariadas. Calculou-se depois que, na tarde da batalha, as bombardas da Frol de la Mar dispararam mais de mil e novecentos projéteis! Pela sua parte, as naus e navios de remo do inimigo não ficaram para trás. Em alguns dos navios portugueses contaram-se, depois da batalha, mais de cinco mil flechas e centenas de lanças e pelouros!
Entretanto, chegara a Santo António, de Martim Coelho. Uma vez que Garcia de Sousa fora desviado para o ataque à nau de Mir-Hocem, coube-lhe o osso mais duro de roer: o ataque à grande nau de Diu. A dificuldade em abordar esta nau era que, além de ser muito grande e alta de costado, estava completamente fechada por cima com uma espécie de telhado de madeira, só podendo ser entrada pelas portinholas da artilharia. Mas isso não era fácil, não só por causa do tiro dos canhões mas também porque dos setecentos homens que a guarneciam a maior parte eram hábeis arqueiros que lançavam continuamente nuvens de flechas sobre os assaltantes. Por mais que o tentassem, os portugueses não conseguiram entrar nela.
Depois da Santo António entrou no porto interior a Rei Pequeno, de Manuel Teles Barreto, que, logicamente, foi participar da tentativa de abordagem a terceira nau de Diu, onde, não encontrou grande resistência, uma vez que a maior parte da guarnição desta nau estava a combater com a gente de Jorge de Melo Pereira em sua nau.
A última nau a entrar terá sido, provavelmente, a Andorinho, de D.António de Noronha, que, dirigiu-se para a última nau de Diu. Aproximando-se dela pela amurada de estibordo. Momentos antes da abordagem, disparou também uma salva de artilharia à queima-roupa, do que veio a resultar, pouco depois, o afundamento do inimigo, não sendo possível efetivar-se a abordagem.
Depois das naus, entraram as caravelas redondas. A primeira foi a de António do Campo, que se dirigiu para o galeão turco que tinha abordado a nau de Nuno Vaz Pereira por estibordo. Aferrou-o e tomou-o sem dificuldade, dado que a maior parte da sua guarnição já tinha sido morta ou feita prisioneira na nau de Mir-Hocem.
O mesmo não veio a suceder com a caravela de Pêro Cão que entrou a seguir. Tendo abordado o segundo galeão turco que estava intacto, encontrou sérias dificuldades. Para complicar mais as coisas, a caravela, que fora mal aferrada ao inimigo, soltou-se e foi à deriva, levada pela corrente somente com os grumetes e pajens que tinha a bordo, deixando Pêro Cão e os seus companheiros, que eram pouco mais de vinte, isolados no navio inimigo, contra uma centena de turcos. Pouco depois, foi morto Pêro Cão, o que tornou a situação ainda mais crítica.
António do Campo, que estava ao lado, apercebido das dificuldades em que se encontrava a gente da outra caravela largou o galeão que havia tomado, e foi prontamente em auxílio. Depois de sangrenta luta , o segundo galeão turco foi também tomado, enquanto o primeiro, abandonado, ia à deriva encalhar na praia.
A terceira caravela a entrar foi a de Filipe Rodrigues. Nesta altura já todas as naus turcas e de Diu estavam dominadas, bem como os dois galeões, à exceção da grande nau de Diu. Por isso, foi lhe abordar, pelo bordo contrário àquele a que estava aferrada a Santo António.
Por último entrou a caravela do comendador Rui Soares, seguida, provavelmente, pelas duas caravelas latinas e pela galé de Diogo Mendes.
Marcus James
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