
A notícia da morte do filho D. Lourenço na batalha de Chaul fulminou D. Francisco de Almeida como se um raio lhe tivesse atingido. Fechou-se inconsolável em seus aposentos. Depois, voltou à vida normal, como se nada tivesse acontecido. Mas, percebia-se que ardia como um vulcão o desejo de vingança. “- Quem comeu o frangão, há-de comer o galo ou pagá-lo!”, teria dito. No entanto, nada havia a fazer no ano de 1508, uma vez que a «monção» estava prestes a chegar. D. Francisco aproveitou o tempo para carenar, sucessivamente, todos os navios que estavam em Cochim e prepará-los com vista às operações que planejava para o fim do ano.
Quando voltou o “bom tempo”, a primeira coisa que o vice-rei fez foi mandar o Capitão Pêro Barreto com uma armada de três naus, seis caravelas e duas galés bloquear Calicute, pois tinha informações de que o Samorim estava organizando uma armada para juntar-se às de Mir-Hocem e de Meliqueaz. Quando Pêro Barreto chegou a Calicute já os paraus (pequenas embarcações) do Samorim iam a caminho de Diu.
No Outono de 1508, chegaram fortuitamente, por acaso, à Índia duas armadas Portuguesas: a do ano e a do ano anterior, que invernara em Moçambique. Por isso, não havia falta de homens, de armas e de todos os outros apetrechos que eram necessários para equipar convenientemente os navios destinados a ir combater os Rumes ( Muçulmanos).
Até 20 de Novembro, D. Francisco de Almeida esteve retido em Cochim, superintendendo no carregamento das naus de abastecimento da colônia. Nessa data seguiu para Cananor com nove naus, das quais duas eram de carga, e um bergantim. Despachadas as duas naus de carga para Lisboa, preparava-se o vice-rei para se ir juntar a Pêro Barreto quando aconteceu aquilo que ele mais temia: a 6 de Dezembro, D.Afonso de Albuquerque chegou a Cananor e requereu-lhe a entrega do governo da Índia!
D. Francisco de Almeida encontrava-se numa situação dramática. Sabia que não tinha qualquer motivo válido para desobedecer às ordens do Rei. Mas não se resignava a deixar a Índia sem vingar por suas próprias mãos a morte do filho. Por fim, o sentimento paternal prevaleceu sobre o sentimento de disciplina. Invocando razões banais, recusou-se terminantemente a entregar o governo antes de dar combate aos Rumes. D. Afonso de Albuquerque – novo Vice-rei indicado, seguiu para Cochim e D. Francisco de Almeida, a 12 de Dezembro, largou com destino a Calicute, levando consigo a frota.
Juntou sua armada com a de Pêro Barreto e descontadas uma pequena nau e três caravelas que ficariam no bloqueio de Calicute achou-se o Vice-Rei com os seguintes navios: cinco naus grandes, a Frol de la Mar, de João da Nova, em que ele próprio ia embarcado, a Belém, de Jorge de Melo Pereira, a Santo Espírito, de Nuno Vaz Pereira, a Taforea Grande, de Pêro Barreto de Magalhães, e a Rei Grande, de Francisco de Távora; quatro naus pequenas, a Taforea Pequena, de Garcia de Sousa, a Santo António, de Martim Coelho, a Rei Pequeno, de Manuel Teles Barreto, e a Andorinho, de D. António de Noronha; quatro caravelas redondas, capitaneadas, respectivamente, por António do Campo, Pêro Cão, Filipe Rodrigues e Rui Soares; as caravelas latinas de Álvaro Peçanha e Luís Preto; as galés de Paio Rodrigues de Sousa e Diogo Pires de Miranda; o bergantim de Simão Martins. Em conjunto, eram dezoito velas guarnecidas com cerca de mil e quinhentos portugueses e quatrocentos malabares de Cochim e Cananor.
Era hábito dos capitães portugueses de antanho, antes de se lançarem numa operação de responsabilidade, empreenderem outra mais fácil com o triplo objetivo de adestrar os homens, fortalecer-lhes o moral e, se possível, amedrontar o inimigo. Ainda em Cananor, o assunto fora debatido entre D. Francisco de Almeida e os capitães dos navios. A hipótese de atacar Calicute fora posta de parte por causa dos riscos. Em seu lugar, foi decidido atacar Baticala, cujo rei andava em guerra com Timoja, Reino vassalo português. Mas, à chegada a esta cidade, soube-se que, afinal, já haviam feito as pazes. Depois de ter tocado em Onor para embarcar mantimentos fornecidos por Timoja, que aí tinha a sua base, a armada portuguesa dirigiu-se para a ilha de Angediva, a fim de reabastecer-se de água potável.
D. Francisco de Almeida aproveitou a oportunidade para reunir novamente o conselho dos capitães, durante o qual foi discutida a estratégia para o caso de os Rumes serem encontrados no mar. De acordo com o plano, caberia à Frol de la Mar, onde ia embarcado o vice-rei, abordar a nau de Mir-Hocem. Acertou-se que se, entretanto, a armada dos Rumes não fosse encontrada, os portugueses atacariam Dabul.
A 29 de Dezembro foi avistada Dabul e, no dia seguinte, a armada franqueou a barra e foi fundear junto da cidade, iniciando-se imediatamente o desembarque. A luta foi terrível, porque a cidade, ao contrário do que se supunha, estava guarnecida com mais de seis mil homens resolutos, solidamente entrincheirados em baluartes muito bem artilhados. Além disso, estavam no porto quatro grandes naus de Cambaia que também se bateram valentemente. Não obstante, a cidade e as naus foram tomadas, tendo o inimigo perdido na batalha mais de mil e quinhentos homens. Dos portugueses, morreram dezesseis e ficaram feridos duzentos e vinte.
D. Francisco de Almeida passou essa noite entrincheirado em terra e, no dia seguinte, autorizou o saque. Mas, ao ver que os soldados se dispersavam perigosamente na vizinhança de um inimigo que ainda tinha muitas forças, mandou pôr fogo à cidade e reembarcou.
Ainda em Dabul recebeu D. Francisco uma carta de Meliqueaz propondo-lhe paz e amizade e outra dos cativos de Chaul, que aquele tinha em seu poder, dizendo-lhe que estavam sendo muito bem tratados. Tais manifestações de receio da parte do inimigo, logo a seguir à vitória alcançada em Dabul, fortaleceram consideravelmente o moral dos portugueses...
Marcus James
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