sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A Batalha de Diu - 3ª Parte (Abertura dos combates)



No dia 2 de Fevereiro, à tarde, quando a armada portuguesa fundeou a leste de Diu, Mir-Hocem mandou atacá-la pelos navios de remo, do que resultou um duelo de artilharia sem consequências, dado que foi travado além do alcance efetivo e que a ondulação dificultava as pontarias. Ao fim de algum tempo, os navios inimigos cessaram os seus ataques e foram fundear perto da costa, do lado de fora do baixio que separa o porto exterior do porto interior. Pouco depois, foram se juntar a essas as quatro naus de Diu, por ordem de Mir-Hocem. Talvez Meliqueaz pensasse em sacrificar a armada para quebrar o ímpeto dos portugueses, antes de entrar em ação com os seus próprios navios, ou então pensava em, na manhã seguinte, vir também com estes para fora do baixo? Jamais saberemos! Embora ausente, Meliqueaz era mantido a par de tudo quanto nela se passava por meio de correios. Logo que soube que Mir-Hocem mandara a sua armada para fora do baixio, regressou a galope e ordenou que as suas naus e fustas, bem como os paraus de Calicute, voltassem. Deste modo, falharam as jogadas com que Meliqueaz e Mir-Hocem tinham procurado para enganar-se mutuamente. O primeiro viu-se obrigado a permanecer em Diu durante a batalha; o segundo viu-se impedido de utilizar a armada daquele como bode expiatório.
Nessa noite, D. Francisco de Almeida reuniu, pela última vez, o conselho dos capitães para traçarem os planos táticos a serem utilizados no dia seguinte. Os capitães pediram a D. Francisco para desistir da idéia de ser o primeiro a abordar a nau de Mir-Hocem, insistindo para que ele permanecesse numa posição afastada dos combates de modo a poder dirigir a batalha no seu conjunto. D. Francisco de Almeida acedeu, ficando decidido que a Nau capitânia não abordaria nenhuma das suas contrárias e que se limitaria, com o tiro da sua artilharia, a impedir que os navios de remo inimigos incomodassem as naus portuguesas encarregadas das abordagens.
Devemos citar que o problema da posição que o comandante em chefe de uma armada durante a batalha deveria assumir, preocupou desde sempre os teóricos da guerra naval. Até pouco tempo atrás, a tese preponderante era a de que devia manter-se fora da linha de batalha. Foi, precisamente, esta a solução adotada pelos portugueses na batalha de Diu.
No conselho foi feita a distribuição dos alvos: as quatro naus grandes (além da Frol de la Ma – que era a Nau-capitânia) abordariam as quatro naus turcas; as quatro naus pequenas abordariam as quatro naus de Diu; duas caravelas redondas abordariam os dois galeões turcos; as outras duas abordariam onde lhes parecesse mais conveniente; uma das galés iria à frente das naus sondando o canal; a outra, possivelmente, recebeu ordem para se manter nas imediações das galés, a fim de socorrer qualquer navio que encalhasse; as duas caravelas latinas auxiliariam a Frol de la Mar na sua tarefa de barrar passagem aos navios de remo inimigos; o bergantim manter-se-ia nas proximidades daquela para transmitir as ordens do Vice-Rei.
Apesar de tudo, o problema que naquele momento parecia mais difícil de resolver era o da passagem do porto exterior para o porto interior através do estreito canal que os liga. Felizmente, entre os cativos que a armada levava encontrava-se um rapaz de dezoito anos que já tinha ido algumas vezes a Diu e que ensinou os caminhos da entrada aos pilotos portugueses.
Terminado o conselho e pelas decisões nele tornadas, a maior parte dos fidalgos e soldados da Frol de la Mar foram distribuídos pelas outras naus, principalmente nas da vanguarda. Até altas horas da noite os marinheiros e os carpinteiros estiveram reforçando as bordas dos navios com paveses e cobrindo-os com fortes redes de cordame, de malha apertada, enquanto os soldados aprontavam as armas e se confessavam e comungavam com os poucos padres presentes. Depois, fez-se o silêncio e cada um ficou a sós com a angústia que sempre precede o dia das batalhas. No exterior dos navios, os vigias, de olhar atento, procuravam descortinar qualquer indício da aproximação do inimigo. Mas, nessa noite, nada aconteceu.
Ao amanhecer do dia 3 de Fevereiro, verificando que todos os navios inimigos continuavam metidos dentro do porto, D. Francisco de Almeida mandou entregar a cada um dos capitães dos navios a seguinte mensagem:
“Senhor, os rumes já não hão-de sair pois hoje o não fizeram, e portanto com a lembrança na Paixão de Cristo, com a viração, a que farei o sinal, em que tereis boa vigia, lhe vamos dar a merenda; e sobretudo vos recomendo grande cuidado das regeiras, que deixareis por popa, para vos alardes a elas quando vos cumprir, porque isto mais releva sobre todas as coisas, para que vos aparteis de fogo, se os mouros em si o puserem para vos queimar, ou vos levarem à costa cortando suas amarras”.
Pelas nove horas começou a soprar um nordeste bonançoso, que era o vento mais conveniente para a armada portuguesa. Mas D. Francisco de Almeida tinha ainda de esperar pela maré. Obrigado a fazer passar a sua armada por um canal relativamente estreito (150 m) e pouco profundo (5 m), não o faria, certamente, sem ser com a maré a encher, para ter possibilidade de safar qualquer navio que eventualmente encalhasse.
Entretanto, mandou novamente o bergantim distribuir pelos navios a relação das recompensas que seriam atribuídas, no caso de a vitória sorrir aos portugueses. Dessa relação constavam, além dos prêmios aos capitães, soldados, marinheiros, bombardeiros, etc, as indenizações a conceder aos feridos e às famílias dos mortos e a promessa de alforria para os escravos que sobrevivessem ao entrevero.
Finalmente, cerca das onze horas, estando reunidas as condições ideais de vento e maré, e tendo a sua gente fortemente motivada e ansiosa por entrar em ação, D. Francisco de Almeida mandou disparar uma bombarda, que era o sinal combinado para iniciar o ataque. Em todos os navios, as trombetas e os tambores atroaram os ares com os seus toques marciais, ao mesmo tempo em que as guarnições davam vivas e faziam grande algazarra. Do lado contrário, as naus e os navios de remo responderam imediatamente da mesma forma. O grande momento chegara!
As naus portuguesas, que já tinham levantado os ferros , suspenderam e, largando traquetes e mezenas, dirigiram-se, pela ordem preestabelecida, para a entrada do canal, precedidas pela galé de Diogo Pires que ia continuamente sondando o caminho a frente.
A primeira nau a entrar foi a Santo Espírito, de Nuno Vaz Pereira, uma nau velha, que fazia bastante água e que, por isso mesmo, fora colocada na dianteira, partindo do princípio que se perderia quase certamente, uma vez que o primeiro navio a entrar seria aquele que correria maiores riscos. Efetivamente, logo que a Santo Espírito e a galé de Diogo Pires. entraram no canal de acesso ao porto interior começaram a ser alvejadas pela fortaleza, pelo fortim do mar e pelos navios de remo do inimigo, sofrendo pesadas baixas.
Tanto as naus turcas como as de Diu estavam também fortemente empavesadas e com os castelos e convés cobertos com fortes redes. Além disso, tinham os costados protegidos por sacos de algodão cobertos com peles de boi molhadas, para evitar os incêndios.
Momentos antes de abordar a nau de Mir-Hocem, a Santo Espírito disparou todos os seus canhões de bombordo contra a amurada da nau turca que estava amarrada à estibordo. O efeito desta salva, disparada a curtíssima distância com bombardas de grosso calibre, foi devastador, provocando um rombo na linha de água, através do qual esta começou a entrar em grande quantidade fazendo adernar a nau. Procurando contrabalançar o adernamento, a sua guarnição passou-se toda para o outro bordo. A nau se endireitou, mas a água que tinha embarcado correu também para esse bordo e fê-la virar, por entre as aclamações, a gritaria e a algazarra da guarnição da Santo Espírito! Tudo se passou tão rapidamente que poucos foram os turcos que conseguiram salvar-se de morrer afogados.
Entretanto, logo após o disparo da sua artilharia, a Santo Espírito, que tinha maior calado que as naus turcas, tocou no fundo e encalhou a poucos metros de distância da nau de Mir-Hocem. Julgando este que os portugueses tinham estacado propositadamente naquela posição para afundarem sua nau com a artilharia como tinham feito à outra, manobrou ficando lado a lado pela amarra do ferro de bombordo e foi abordar a nau de Nuno Vaz que, não desejava outra coisa. Logo que as duas naus se juntaram, os portugueses saltaram na contrária e em poucos minutos tomaram-lhe o castelo da proa e o convés. Porém, no momento em que parecia que a capitânia turca estava irremediavelmente perdida, um dos galeões, que vinha por bombordo, alou-se pela amarra do ferro de estibordo e veio abordar a Santo Espírito que estava aferrada à nau de Mir-Hocem. Ficou a nau Portuguesa entalada entre dois navios turcos, obrigada a combater simultaneamente com ambos. Em resultado disso, parte dos cavaleiros e soldados que estavam na nau de Mir-Hocem regressaram velozmente à sua nau para a defender do ataque do galeão. Neste transe, Nuno Vaz Pereira foi gravemente ferido por uma flecha que lhe atravessou a garganta e teve de ser evacuado às pressas. A partir desse momento, a guarnição da Santo Espírito viu-se forçada a uma atitude defensiva, limitando-se a repelir os sucessivos assaltos dos turcos por ambos os lados.

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