
A 5 de Janeiro, a armada prosseguiu sua viagem para norte. Exigiu-se em Chaul (onde o filho de D. Francisco de Almeida fora morto) o pagamento de reparação ao capitão do Nizamaluco, senhor da cidade. Mas este não dispunha do dinheiro necessário para o pagamento, mas jurou em nome de tudo que lhe era sagrado que pagaria quando o Vice-Rei regressasse de Diu.
De Chaul, a armada dirigiu-se para Maim, que ficava na ilha de Salcete, próximo de Bombaim. A falta de mantimentos continuava preocupante, as galés, para sanar-se tal problema iam assaltando as povoações costeiras. Num desses assaltos, Paio de Sousa, capitão de uma delas, caiu numa emboscada e foi morto. A sua galé foi dada a Diogo Pires e a deste passou para um fidalgo chamado Diogo Mendes.
Dias depois esteve esta galé em risco de perder-se. Ao abordar descuidadamente uma fusta de Diu que lhe pareceu fracamente guarnecida, Diogo Mendes se viu de súbito confrontado com um grupo numeroso de resolutos e bem armados turcos, que se tinham escondido à sua aproximação, e que agora, com o sucesso de seu plano, invadiam o navio português dispostos a lhe tomarem. Afinal, os portugueses reagruparam-se no convés e todos os assaltantes foram mortos à ponta de espada. Na fusta não foram encontrados mantimentos nem nada de valor, porém, surpreendentemente foi encontrada cativa uma moça húngara de rara beleza que Diogo Mendes levou para a nau do vice-rei e que, mais tarde, viria a casar-se em Cochim com um dos fidalgos portugueses.Em Maim, foram comprados, os mantimentos de que a armada tanto necessitava. Enviou D. Francisco de Almeida uma carta a Meliqueaz, que dizia assim:
"- Eu o visorei digo a ti honrado Meliqueaz, capitão de Diu, e te faço saber que vou com meus cavaleiros a essa tua cidade, lançar a gente que se aí acolheram, depois que em Chaul pelejaram com minha gente, e mataram um homem que se chamava meu filho; e venho com esperança em Deus do Céu tomar deles vingança e de quem os ajudar; e se a eles não achar não me fugirá essa tua cidade, que me tudo pagará, e tu, pela boa ajuda que foste fazer a Chaul; o que tudo te faço saber porque estejas bem apercebido para quando eu chegar, que vou de caminho, e fico nesta ilha de Bombaim, como te dirá este que te esta carta leva".
Mas a travessia de Maim para Diu mostrou-se mais difícil do que parecia, devido aos ventos contrários. Não conseguindo avançar junto à costa, os pilotos aconselharam D. Francisco de Almeida a fazer-se ao mar. Porém, passados alguns dias, encontrando-se completamente perdidos, declararam que antes da «monção» já não era possível alcançar Diu, propondo o regresso a Cochim. D. Francisco ficou desesperado e mandou levar à sua presença os pilotos de algumas ”naus de Meca” que tinham sido apresadas durante a viagem. Um deles disse-se pronto a levar a armada a Diu se lhe fosse concedida liberdade. Concordou o Vice-Rei e, seguindo suas indicações e apesar do ceticismo dos pilotos portugueses, mandou rumar a sudoeste. Ao amanhecer do dia 2 de Fevereiro, Diu, em toda a sua opulência, estava à vista!
Enquanto isso não estavam inativos os rumes, no campo contrário. Após a batalha de Chaul, festejada pelos «mouros» como uma grande vitória, Mir-Hocem e Meliqueaz haviam-se tornado heróis aos olhos de todos os muçulmanos da Índia. Porém, no seu íntimo, qualquer deles estava longe de partilhar da euforia dos seus suditos. Logo após à batalha, Meliqueaz tinha enviado uma carta a D. Francisco de Almeida ressaltando a coragem de seu filho e dos companheiros e garantindo-lhe que os prisioneiros portugueses, que ainda tinha em seu poder, seriam bem tratados, como realmente foram. No entanto, calculando corretamente que isso não seria bastante para apaziguar a ira do Vice-Rei, tratara de fortalecer a sua armada juntando-lhe quatro naus bem artilhadas e guarnecidas, uma das quais de grandes dimensões, e mandara construir e equipar mais fustas. Por seu turno, Mir-Hocem, sentindo-se igualmente inseguro, não poupara esforços para recompor a sua armada dos estragos que havia sofrido em Chaul. No entanto, e apesar do auxílio financeiro que recebeu dos “mouros” de Diu, a sua situação não era brilhante. É certo que sua frota aumentara com a chegada do galeão que tinha deixado para trás quando saíra do mar Vermelho; mas faltava-lhe de gente, já que dos mil e quinhentos homens com que largara de Suez, dois anos antes, só lhe restavam pouco mais de oitocentos.
Para aumentar ainda mais as preocupações de Meliqueaz e de Mir-Hocem, a partir de Outubro começou a chegar notícias em Diu que, depois da “monção”, tinham chegado a Cochim numerosas naus de Portugal, com muita gente de armas. Foi por isso que ambos concordaram em adotar a estratégia de conservar as suas armadas em Diu, abandonando a iniciativa do combate aos portugueses.
Com a conquista de Dabul e a chegada da carta de D. Francisco de Almeida dissiparam-se todas as dúvidas, se é que ainda as havia, sobre o iminente ataque. Meliqueaz e Mir-Hocem compreenderam que não tinham maneira de evitar uma batalha sem quartel com o Vice-Rei. O primeiro amaldiçoava a hora em que os Turcos se tinham lembrado de escolher Diu para base de operações; o segundo, sentindo que o seu parceiro não hesitaria em entregá-lo para salvar a cidade, só pensava em encontrar uma maneira honrosa de escapar ileso para o mar Vermelho. D. Francisco de Almeida conduzia a “guerra psicológica” como um verdadeiro mestre e, através dela, já tinha a batalha meio ganha antes de chegar a Diu.
Logo percebeu-se em Diu que a armada portuguesa se encontrava próxima. Meliqueaz e Mir-Hocem reuniram-se para discutir a tática a adotar. O turco era de opinião de que deviam ir combater os portugueses ao largo para tirar partido da enorme superioridade numérica de que dispunham em navios de remo: seis galés e galeotas turcas, cerca de cinquenta fustas de Diu e outros tantos paraus de Calicute, todos muito bem artilhados e guarnecidos com gente experimentada e valorosa. Mas Meliqueaz se opôs veementemente pois sabia que se as coisas começassem a corressem mal, o que lhe parecia provável, Mir-Hocem não hesitaria em retirar-se para o mar Vermelho, deixando-o sozinho para lidar com a vigança do Vice-Rei. Por isso, insistiu para que combatessem fundeados, de modo a beneficiar do apoio da artilharia da fortaleza e do fortim do mar bem como de outra que tinha mandado colocar em terra, dando a entender claramente a Mir-Hocem que se saísse para o mar nem as suas fustas nem os paraus de Calicute o acompanhariam. Mas a astúcia de Meliqueaz não ficou nisso. Com o pretexto de ser indispensável a sua presença numa guerra em que andava envolvido no continente, abandonou Diu, deixando a Mir-Hocem a espinhosa tarefa de, sozinho, fazer as honras da casa ao Vice-Rei! Porém, Mir-Hocem não era homem para se deixar manipular tão facilmente, como se verá adiante...
Marcus James
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