
Logo que perceberam que a batalha estava irremediavelmente perdida, os paraus de Calicute puseram-se em fuga, saindo para o mar pela outra entrada do canal que contornava a ilha de Diu. Por sua vez, as galés e galeotas turcas, bem como as fustas de Meliqueaz, começaram também a retirar.
Não tendo qualquer nau ou galeão que pudesse abordar, o comendador Rui Soares foi atrás dos navios de remo que batiam em retirada e, metendo-se no meio das duas galés turcas, aferrou-se a ambas e as tomou de assalto, o que lhe mereceu os maiores elogios do Vice-Rei.
Nesta altura já os marinheiros e soldados portugueses tinham se metido nos batéis e apressavam-se a matar os turcos e os “mouros”, que a nado procuravam alcançar terra, na ponta das lanças. No entanto, a grande nau de Diu continuava a resistir.
Observando isso, D. Francisco de Almeida mandou ordem a Garcia de Sousa, que era quem tinha gente mais descansada, para ir dar uma ajuda a Martim Coelho e a Filipe Rodrigues. Mas, apesar de todas as tentativas feitas pelos três navios, não foi possível penetrar na nau. Então, Garcia de Sousa mandou afastar os navios e deu-lhes ordem para meterem no fundo a nau com a artilharia. Sob o matraquear contínuo da artilharia portuguesa, as arrombadas desfizeram-se, o costado abriu fendas e a nau começou a afundar lentamente. Só restava, com os batéis, exterminar os ocupantes que se lançavam desesperados à água.
A batalha terminara com uma estrondosa vitória dos Portugueses! Sem terem perdido um único navio, tinham afundado duas naus turcas e duas de Diu e capturado duas naus e dois galeões turcos, bem como duas naus de Diu, além de terem afundado diversas fustas e paraus, avariado gravemente muitos mais e capturado duas galés turcas. Dos portugueses morreram trinta e dois, entre eles os capitães de dois navios (Nuno Vaz Pereira e Pêro Cão) e ficaram feridos mais de trezentos. Dos oitocentos homens que guarneciam a armada turca apenas vinte e dois conseguiram escapar-se para terra. Todos os outros foram mortos ou feitos prisioneiros. Em conjunto, o inimigo perdeu mais de três mil mortos e um número ainda maior de feridos.
Pelas cinco da tarde, tendo o vento rondado, provavelmente, para norte ou noroeste e começando a maré a vazar, D. Francisco de Almeida resolveu voltar com a armada para o porto exterior, percebendo que a artilharia de terra continuava a flagelar os seus navios e que, por outro lado, receava ser atacado durante a noite pelas fustas. Apesar de efetuada já durante o crepúsculo, a saída fez-se sem novidade. No porto interior foram deixadas apenas as galés e alguns batéis para impedir que os “mouros” fossem tirar coisas das naus que haviam sido tomadas.
Uma vez fundeada a armada em segurança no porto exterior, as guarnições dos navios estiveram festejando ruidosamente a vitória até altas horas da noite, enquanto D. Francisco de Almeida percorria os navios, um por um, abraçando os fidalgos e os soldados e confortando os feridos.
No outro dia de manhã, antes do Sol nascer, aproximou-se da armada uma fusta com bandeira branca trazendo a rendição incondicional de Meliqueaz e com ela a entrega da cidade de Diu. Recebida a mensagem, D.Francisco de Almeida exigiu, como condição prévia para qualquer negociação, a entrega imediata dos prisioneiros de Chaul. Uma hora depois, os prisioneiros entravam na sua nau, ao som das trombetas e dos tambores, e, com lágrimas de alegria a escorrerem-lhes pelas faces, caiam nos braços dos seus companheiros. Vinham vestidos de seda e cada um deles trazia cinquenta xerafins de ouro que Meliqueaz lhes mandara dar!
A conclusão de um tratado de paz (que foi escrito numa folha de ouro) não ofereceu qualquer dificuldade. D. Francisco de Almeida declinou o oferecimento da cidade de Diu que, no seu entender, custaria muito para manter, limitando-se a deixar nela uma feitoria. Exigiu a entrega das quatro galeotas de Mir-Hocem, dos turcos que tinham conseguido fugir para terra e da artilharia das naus afundadas, além de uma indenização de trezentos mil xerafins a pagar pelos comerciantes “mouros” que tinham financiado o reequipamento da armada dos Rumes, dos quais cem mil foram distribuídos pelas guarnições dos nossos navios.
Meliqueaz aceitou tudo, conseguindo, no entanto, substituir a entrega dos turcos pela sua expulsão dos seus domínios. Tendo conseguido evitar aquilo que mais temia, que era o saque e o incêndio da cidade, estava satisfeitíssimo e cumulava os portugueses de gentilezas. Raro era o dia em que não enviava à armada Portuguesa uma fusta carregada com carneiros, galinhas, ovos, laranjas, limões, hortaliças, etc. Aos fidalgos oferecia valiosos presentes. Mas D. Francisco de Almeida nada aceitou para si, nem mesmo um colar de pérolas e uma peça de brocado que Meliqueaz lhe deu para sua filha e que ele enviou entrementes para a Raínha.
Em troca dos favores de Meliqueaz, foram-lhe devolvidas as duas naus que lhe haviam sido tomadas na batalha. Os galeões turcos é provável que fossem vendidos, sendo o produto da venda distribuído pelas guarnições dos navios Portugueses. As duas naus ficaram em Diu a carregar mantimentos com destino a Cochim. As quatro galeotas foram queimadas. As duas galés capturadas pelo comendador Rui Soares como é natural foram levadas para Cochim como troféus.
Entre os despojos da batalha figuravam três bandeiras reais do sultão do Cairo, que foram mandadas para Portugal e ficaram expostas no convento de Cristo, em Tomar.
Em relação aos cativos turcos, D. Francisco de Almeida foi inclemente, mandando enforcar, queimar vivos ou despedaçar amarrando-os à boca das bombardas a maior parte deles.
Vingada a morte de seu filho, arrumados os assuntos de Diu e despachadas duas naus com mantimentos para Socotorá, D. Francisco de Almeida, a 12 de Fevereiro, iniciou com o resto da armada o regresso triunfal a Cochim.
A batalha de Diu, apesar de ensombrada pelo tratamento cruel dado por D. Francisco de Almeida aos prisioneiros turcos, é, indubitavelmente, a mais importante de toda a História da Marinha Portuguesa e uma das mais importantes da História Naval Universal.
Sob o ponto de vista tático, foi uma batalha de aniquilamento que só encontra paralelo em Lepanto (1571), Aboukir (1798), Trafalgar (1805) ou Tsuchima (1905). Sob o ponto de vista estratégico, não terá sido menos importante do que qualquer destas, antes pelo contrário, porquanto: assegurou aos Portugueses, durante quase um século, o domínio absoluto do oceano Índico; abateu consideravelmente o poder e o prestígio dos Turcos, que eram então o terror da Europa; marca o início de um longo período de domínio da Ásia pelos Europeus, que só terminou com a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial.
Se os Portugueses (e os Brasileiros, por extensão) não fossem um povo que pouca atenção presta à sua História Marítima é provável que sentissem, em relação à batalha naval de Diu, um sentimento semelhante ao que nutrem os Espanhóis por Lepanto, os Ingleses pelo Nilo (Aboukir) ou Trafalgar e os Japoneses por Tsuchima.
Marcus James
